Aqui vai algo que talvez eu nunca tenha dito, mas é muito provável que muito da minha formação como publicitário se deva às histórias em quadrinhos que leio desde que me conheço por gente. Assim como o cinema, a literatura e a música, todas paixões minhas, os quadrinhos me ajudaram a ter a mente aberta, agindo como um estímulo permanente à imaginação e à criatividade. Não por acaso, até hoje, eles são fonte constante na busca por referências que são muito úteis no dia a dia de um criativo publicitário (Aliás, vocês já leram minha publicação sobre referências? Não? Então leia aqui).
Pois bem. Estive este final de semana no Fest Comix, já tradicional feira realizada pela Comix Book Shop, loja especializada em HQ’s de São Paulo e isso me inspirou a escrever esta publicação. Já em sua décima sétima edição, a ida ao evento me fez pensar em algumas coisas. Primeiro, o fato de que este hábito, tido por muitos como de crianças, tem um público bem diversificado. Jovens e velhos, homens e mulheres, lá pude ver de tudo, inclusive pais e filhos, juntos, comprando cada um aquilo que lhes era mais interessante. E segundo, que a oferta de títulos é cada vez maior e variada. Assim como muitos de seus leitores, incluindo eu mesmo, o mercado dos quadrinhos evoluiu, amadureceu, e hoje tem lugar cativo nas livrarias e estantes, espaço antes restrito à “literatura séria”.
Isto posto, a exemplo de outras ocasiões, deixarei aqui minhas dicas de obras que li e tenho lido recentemente e que são exemplo claro da vasta oferta que as editoras que hoje investem neste segmento disponibilizam.
Watchmen
Para quem acredita que quadrinhos é só coisa de super-herói, essa série talvez seja a que passa mais perto. Ou não. Adaptada recentemente para o cinema, a obra de Alan Moore e Dave Gibbons apresenta uma trama que envolve vigilantes mascarados, assassinato e um plano que pode salvar – ou destruir – o mundo. Pude ler a edição luxuosa, lançada pela editora Panini próxima à estreia do filme no cinema e foi uma experiência e tanto. Além de todos os capítulos da série encadernados em uma edição para lá de bacana, muitos extras, como esboços dos personagens e trechos do roteiro. Sempre ouvi falar de Watchmen como leitura indispensável e vi nesta versão a minha oportunidade de conferir se isso era uma realidade. O “calhamaço” de mais de 400 páginas cumpriu minha expectativas com louvor, mas certamente não é leitura para iniciantes no mundo dos quadrinhos, tamanho o volume de informações e as ideias ousadas que o escritor britânico Alan Moore aplica nesta obra repleta de metalinguagem e referências políticas.
Scott Pilgrim
Outra obra que recebeu uma adaptação para o cinema, mas que até o momento, no Brasil, só foi exibida no festival do Rio. Apesar da trama central fugir completamente do universo dos homens com cueca por cima da calça, referências a este universo, bem como ao mundo do rock e aos jogos de videogame não faltam nesta história sobre um jovem rapaz que se apaixona por uma garota nova na cidade, mas que para conquistá-la terá que enfrentar os sete ex-namorados dela. Desenhada com um estilo que lembra bastante os quadrinhos japoneses, outra referência direta ao mundo da cultura pop, esta série está sendo lançada por aqui pela Companhia das Letras, editora que tem investido pesado em quadrinhos alternativos e adultos, como o próximo da minha lista…
Jimmy Corrigan, O Menino Mais Esperto do Mundo.
Difícil definir esta obra que, apesar de não ter sido adaptada para o cinema, merecia. Posso pensar em muitos adjetivos mas em nenhum rótulo. Melancólica, realista, tocante, muitas são as palavras que definem esta história que atravessa três gerações de Jimmy Corrigan’s, mas foca principalmente em um deles, o mais novo, que vê sua vidinha bastante medíocre (no sentido exato da palavra, uma vida média) abalada pela ligação do pai, até então um desconhecido, convidando-o para um inédito, e derradeiro, encontro. O tema da paternidade, ou a ausência dela, é sempre presente, bem como a solidão. Segundo o próprio autor comenta no final da obra, qualquer semelhança com pessoas reais e vivas não é mera coincidência.
MSP50 e MSP+50
Por último, mas certamente não menos importante, muito pelo contrário, uma coletânea de histórias 100% brasileira e que homenageia o maior dos nossos quadrinistas, Maurício de Sousa. A primeira edição surgiu como homenagem aos 50 anos de carreira do pai da Mônica e reuniu 50 talentos, novos e veteranos, dos quadrinhos brasileiros. A compilação foi organizada por Sidney Gusman, talvez o principal nome do jornalismo especializado na área e hoje responsável pelo planejamento editorial da Maurício de Sousa Produções, e tinha como objetivo apresentar diferentes visões sobre estes conhecidos personagens. O sucesso foi tanto que recentemente, na Bienal do Livro de São Paulo, foi lançado o álbum Maurício de Sousa por mais 50 artistas, ou MSP+50, a segunda edição desta coletânea, com o mesmo propósito mas, em minha opinião, um pouco mais livre na temática pois não trata especificamente dos 50 anos de carreira, como a anterior. A verdade é que ambas as obras são excelentes, apresentando, com estilos e formas variadas, visões por muitas vezes inusitadas destes personagens conhecidos por todos. Das obras citadas aqui, é certamente a mais abrangente e que trará boas e gostosas lembranças até àqueles que acham os quadrinhos coisa de criança. E parece que vem mais um volume por aí…